LIÇÕES PARA A VIDA...

Após 34 anos de prática marcial, aqui ficam algumas lições que aprendi ao longo dos anos:

> A respiração é tudo! A forma como nós respiramos tem o poder de ditar que tipo de atleta nós somos, a qualidade do nosso sono e até a forma como o nosso corpo funciona. Respirar é vida. Um dos meus Mestres um dia disse-me que conseguia avaliar a qualidade de um lutador apenas pela forma como ele respirava. Na altura não entendi como era possível, hoje não consigo ver de outra forma. A respiração é sem dúvida um aspeto muito importante na prática marcial, assim como na nossa vida. Seria bom, diariamente reservarmos algum tempo para respirar conscientemente.

> Abrandar é necessário! Mais no meu papel de Instrutor do que de aluno, sinto a necessidade de constantemente abrandar o ritmo dos meus alunos. Hoje em dia, parece haver uma necessidade intrínseca de querer ter e ser tudo, muito rápido. Para lecionar uma técnica (exemplo), há que dividir o ensino por partes, treinar a técnica isolada, composta e final. Juntar atributos e dinâmicas, para depois então, com um entendo mais completo, apresentar o produto final. Mas este ensino é muitas vezes recebido por parte do aluno como monótono e pouco motivante. Esta perceção advém do estilo de vida a que estamos habituados. Nos treinos ou na nossa vida pessoal, é preciso abrandar para saborear o caminho, a viagem...

> A palavra tem a força que nós lhe damos! O poder das palavras é imenso. Conseguimos inspirar, informar e destruir apenas com palavras. No treino marcial aprendi desde de muito cedo que eu tenho o poder de dar valor ou poder ás palavras dos outros e não vice-versa. Aprendi que nunca devo reagir a agressões verbais e que o meu treino físico deve ser guardado e preservado apenas para situações de defesa pessoal no âmbito da integridade física eminente. Constantemente utilizo esta aprendizagem na minha vida, seja pessoal, profissional ou social. Somos nós que damos importância ao que está a ser dito e dessa forma, tornamos reais as intenções ou agressões.

> A consciência é tudo! A capacidade de estar consciente numa determinada situação, faz toda a diferença no que respeita ao sucesso ou fracasso da mesma ou potencialmente vida ou morte. Onde podemos nós adquirir tal capacidade? Não procure mais...nas artes marciais com certeza. Com um bocal na boca a dificultar a respiração, um capacete na cabeça, equipado com luvas e caneleiras e estar a ser atacado com socos e pontapés não é brincadeira. Nada te trás mais para a consciência do presente que uma luta, seja ela real ou de treino! Mas não é apenas a luta que te trás esse estado de consciência, a meditação também o faz ou outro tipo de práticas meditativas. A quietude pode ser tão desafiante como um confronto físico. A diferença é que nas práticas meditativas nós desaceleramos para encontrar a consciência, nas artes marciais tanto desaceleramos como aceleramos. Com a justaposição de velocidade e intensidade surge a capacidade de encontrar a consciência em qualquer situação.

> Todo o conflito começa e acaba no interior! Esta é uma das lições mais valiosas que aprendi enquanto aluno, instrutor e ser humano. Nos treinos mais duros que fiz, nos combates que tive em treinos e em competição, até mesmo nos conflitos que tive que gerir em contexto real, o maior obstáculo sempre foi vencer o meu próprio medo, a minha própria ansiedade, a minha própria respiração e tensão. No treino das artes marciais existe um principio básico: as batalhas serão ganhas quando estivermos preparados para nos enfrentar a nós próprios.

> A única coisa que importa é a viagem! Na cultura ocidental, o nosso focus está no resultado final. A vitória compara-se com a derrota, o sucesso com o insucesso, atingir os objectivos ou não atingir. Na prática marcial aprendemos que o que importa é o crescimento, independentemente do resultado final. A viagem marcial é a viagem interior do desenvolvimento pessoal. Desta forma o crescimento é infinito...


Muito obrigado pelo teu tempo a ler este pequeno artigo.

Nuno Nunes