MOTIVAÇÃO OU DESMOTIVAÇÃO...EIS A QUESTÃO!

Nas últimas semanas, uma palavra tem aparecido repetidamente no meu "campo" auditivo: motivação! Ou para ser mais exacto: falta de motivação... 

Esta realidade tem-se verificado em diferentes contextos, no entanto, claramente mais acentuado na prática das artes marciais. Têm sido tantas as pessoas que têm vindo falar comigo sobre motivação e desmotivação, dizendo uma quantidade tão grande de "clichés" e conclusões percepitadas, que achei por bem colocar por escrito alguns pensamentos próprios sobre o tema. 

Existem dois tipos de motivação bem diferentes, uma real e uma falsa. Começando pela motivação falsa, é aquela que advém meramente de acontecimentos exteriores é aquela que necessita ser alimentada exteriormente, para se manter num grau suficiente para comandar a vontade. É também efémera e enganadora, uma vez que tem sempre os dias contados e não tem origem no interior. Mas depois existe outro tipo de motivação, aquela que vem de dentro e que pode ser ajudada/suportada pelos acontecimentos exteriores, mas nunca pode depender dos mesmos para sobreviver. É uma motivação que não conseguimos explicar, simplesmente está lá, move-nos...essa é a verdadeira!

Com isto dito, existem alguns outros pontos que devem ser levados em consideração, nomeadamente o facto de que até a motivação verdadeira padece por vezes de desmotivação...confuso? Eu explico:

A vida é feita de ciclos, ora estamos em cima ora estamos em baixo, nada é permanente nesta vida. Assim sendo, por influência do tempo, por influência de determinadas circunstâncias da vida, mesmo uma motivação verdadeira pode sofrer um abalo e isso não só é normal como até desejável, ajudando o próprio a manter as suas escolhas em perspetiva.  

Aqui a grande diferença é que quando a motivação é verdadeira e passamos uma fase menos boa, não colocamos tudo em questão! Avaliamos, ponderamos, alteramos, desenvolvemos e voltamos mais fortes no ciclo seguinte. Em vez disso, quando a motivação é falsa, qualquer desculpa serve para nos abalar e nos retirar o foco. 

Após este contexto generalizado daquilo que eu tenho como experiência referente à motivação, eis que vou tentar espeficicar agora alguns casos mais concretos, daqueles que me foram aparecendo nas últimas semanas.

De Setembro a Abril o nosso índice de alunos nas classes é superior ao índice de alunos de Maio a Julho. Se retirarmos o factor de "ausência por se encontrar de férias fora da localidade", podemos concluir que as aulas e as ferramentas usadas pelos instrutores nestes últimos três meses, são inferiores às utilizadas nos meses anteriores? Claro que não, as ferramentas são as mesmas! Então o que é que muda? O que muda, são os próprios alunos...estamos no final do ano lectivo, há mais cansaço, os dias são maiores e há mais sol disponível, mais tempo para brincar, jogar, menos motivação para ir aos treinos ou a outra coisa qualquer que não envolva, amigos, brincadeira, piscinas, mar, festas ou novidades...

Para além deste fenómeno natural das estações do ano, outro dos pontos que acho fascinante ninguém pensar é no quanto o nosso mundo está ao contrário. Tudo tem de ter uma gratificação rápida, aqui e agora. Não há paciência, não há capacidade de apreciar o momento e esperar a recompensa. Estas, (recompensas) que deveriam ser significativas, perdem o seu valor, pela quantidade de vezes com que são entregues, seja por isto, por aquilo ou por outra coisa qualquer...o importante é haver uma recompensa, que mantenha o ego elevado e a tal "motivação" em cima. Mas o mais engraçado é que esse tipo de motivação, conforme já falei é falsa e por isso insaciável, sendo impossível satisfazer as suas necessidades por muito tempo. Assim sendo, mesmo com recompensas de várias naturezas, distribuídas pelos vários meses, a sensação de motivação é cada vez mais escassa, a duração da última "dose" é cada vez menor e tal e qual como uma droga, a necessidade vai aumentando, tornando-se um vício impossível de manter e motivar.

Conclusões

Estamos a criar crianças impossíveis de alimentar! Crianças com egos do tamanho do mundo, que buscam o prazer imediato e superficial. Em vez disso devíamos estar a desenvolver crianças que crescem com calma e seguros que o trabalho compensa. Estamos a criar crianças insufladas, que suportadas por adultos na maior parte dos casos decepcionados com a vida, projectam nelas as suas inseguranças, desilusões ou mesmo desejos, dando origem a futuros adultos que não terão ferramentas para lidar com a frustração, que foram habituados a desistir quando não conseguem rapidamente ter o retorno expectado. Futuros adultos que estarão tão viciados em ter o que querem, que serão mais Tiranos que Humanos.  

A meu ver, em qualquer ponto da vida, sempre que há uma desmotivação existe um processo básico, para o qual devemos focar a nossa atenção:

> Quais as razões que me motivaram a iniciar esta actividade?

> Essas razões mantêm-se ou alteraram-se? Se mudaram, estão na minha opinião melhores ou piores?

> Continuo a valorizar estas razões para a minha vida, continua a fazer sentido para mim?

> Quais serão os motivos internos por detrás da minha desmotivação? Estarei cansado? Aumentaram o nível de exigência e estarei a escolher o caminho mais fácil? Existem alguns acontecimentos que não entendo e que me retiram motivação? Se sim, já tentei entender os seus porquês?

> Tenho outros focos de interesse que me estão a roubar atenção? Quais os resultados esperados desses outros focos de atenção? Qual dos meus focos está mais alinhado com o que eu quero/preciso?

> Estarei a comprometer algo que acredito e que faz sentido para mim a longo prazo, pela satisfação momentânea da novidade?

Uma vez mais, decidi escrever estas linhas pelo facto de nas últimas semanas ter sido confrontado com esta realidade, mas também, porque acredito que esta reflexão pode ser importante para todos nós, não apenas na prática de uma qualquer actividade mas até na forma como vivemos a nossa vida e pautamos as nossas escolhas...

Grato pela vossa motivação!