A FORMA E O CONTEÚDO

Tenho a sorte de conhecer muitas pessoas, de viajar e ver outras realidades, o que na minha opinião me ajuda a alargar os horizontes e a conseguir criar alguma distância na analise dos "problemas" do dia a dia. Um desses problemas é sem dúvida a confusão existente entre "forma" e "conteúdo". Vou dar o exemplo das Artes Marciais, mas acredito que este conceito é transversal a quase tudo na vida. 

Na prática das Artes Marciais o conceito de "conteúdo" utiliza-se para referir princípios e valores estruturais, como por exemplo: respeito, humildade, integridade, lealdade, eficácia e segurança, para mencionar alguns. Já quando se fala em "forma" estamos a referir a maneira como aplicamos esses mesmos princípios e valores, a maneira como os manifestamos. Ora se pararmos para analisar, existem talvez infinitas "formas" de mostrar respeito para com uma pessoa ou atitude. Existem infinitas "formas" de ser humilde, integro, leal, eficaz e seguro, assim sendo, podemos concluir que a "forma" não define o "conteúdo". O "conteúdo" é definido pelas acções, independentemente da "forma" que adoptamos.

Dando exemplos mais concretos, é frequente hoje em dia haver um julgamento rápido referente às várias práticas marciais, por exemplo, o uso de um "Gi" ou fato de treino específico para o treino de artes marciais de origem japonesa. Então se a arte marcial "A", "B" ou "C" usa um "Gi" como equipamento de treino é considerada tradicional e portanto assumimos um determinado "conteúdo". Se a arte marcial "D", "E" ou "F" não usa um "Gi" como equipamento de treino e usa uma roupa mais desportiva e moderna, então isso significa que não é tradicional e portanto não passa os mesmos "conteúdos". Este mesmo exemplo pode ser aplicado em tantos outros julgamentos nos dias de hoje, dentro e fora do panorama das Artes Marciais. Se o estilo "A" tem Katas ou Formas, se o estilo "B" usa terminologia oriental (seja ela qual for), ou se usa palavras e termos americanos, etc...assim sendo, continuamos constantemente a julgar os "conteúdos" pela "forma", cometendo grandes erros de julgamento com suposições primárias e infantis.

Estamos a confundir "forma" com "conteúdo". Não é o "hábito que define o monge...", não é a "forma" que define o "conteúdo", são as acções! Apenas as acções definem o conteúdo, porque por mais que não queiramos, nós somos aquilo que fazemos de forma continuada! Nós não somos o que dizemos, nem tão pouco o que escrevemos nas redes sociais. 

Usar o mais bonito e tradicional "Gi" para treinar, fazer a melhor e a mais tradicional das "Katas", responder a tudo com "Osu" (mesmo sem saber o significado da palavra), tratar o seu Instrutor por "Mestre", "Sensei", "Shihan", mas ao mesmo tempo apunhala-lo pelas costas, sabotar as suas acções, critica-lo em público e principalmente agir com deslealdade para com o mesmo, demonstra uma "forma" bonita com um "conteúdo" muito feio, fraco e principalmente efémero...