POSITIVO OU NEGATIVO?

Se for optimista, acabarão por lhe acontecer coisas boas! Esta ideia impôs-se na nossa sociedade ao jeito de um mantra enfadonho. Porém, a realidade encarrega-se de desmenti-la. Numerosos vencedores, gostam de pensar que o seu êxito se deve, em grande parte, às constantes mensagens optimistas que dirigem a si próprios. O problema é que a sua versão da história colide frequentemente com os factos. No livro "Foras-de-série" de Malcom Gladwell estão reunidos vários dados e estatísticas que indicam que a probabilidade de obter ganhos depende de uma acumulação estável de vantagens, como o lugar e a época em que nascemos, as condições materiais da sociedade em que crescemos, vir de uma família com prestígio numa determinada área...trata-se de factores importantes! A hipótese da omnipotência da atitude não resiste  a uma análise: "damos demasiada atenção ao individual, a descrever as características, os hábitos, a personalidade das pessoas que ocupam os lugares da frente." Esse é o problema! Se quisermos entender as razões do sucesso é igualmente necessário observar as circunstâncias que o rodeiam: a sua cultura, a sua comunidade, a sua família, a sua geração. Estivemos a contemplar as árvores mais altas, não nos podemos esquecer de observar a floresta. Malcom analisa ainda as circunstâncias que rodearam o êxito de futebolistas, homens de negócios ou bandas de rock. Encontrou sempre conjunturas vantajosas que explicavam o seu sucesso melhor do que o pensamento positivo. As conquistas de muitas figuras universalmente admiradas foram obtidas à custa de crises de melancolia, pessimismo e mau-humor. É claro, para quem faz uma analise mais a fundo que a felicidade futura depende, em elevada percentagem, de um mal-estar presente que nos incita a agir para alterá-lo. Paradoxalmente, o bombardeamento de frases positivas pode levar as pessoas com baixa autoestima a sentirem-se ainda pior. Pelo contrário, desabafar as suas tristezas melhora o estado de ânimo. Usufruir de algo que se deseja como se já tivesse sido conseguido faz desaparecer a insatisfação e o entusiasmo necessários para alcançar o objectivo. A função dos sentimentos não é fazer-nos felizes, é mudar o mundo. Os sentimentos negativos serviram ao ser humano para alterar o rumo dos acontecimentos. Se o que corre não nos agrada, sentimos tristeza, olhamos para o outro lado e procuramos novos caminhos. Quando nos sentimos zangados e o dizemos, aqueles que estavam a humilhar-nos afastam-se ou começam a respeitar-nos. Ter medo serve para não nos metermos em sarilhos...a negatividade é sempre o início da mudança. A lucidez, seja qual for a forma que adote, é o primeiro passo para uma mudança real. Enganar-se a si próprio é apenas útil no caso de nos termos de resignar quando não existe a possibilidade de controlar os acontecimentos e não podemos modificá-los. No entanto, o facto é que, hoje em dia temos poder para alterar a situação, na maior parte dos problemas que enfrentamos. Por isso, embora possa ser doloroso, a melhor táctica consiste em sentir mal-estar emocional, tomar consciência do que está mal, tentar mudá-lo e, resolvido o problema, usufruir da felicidade de tê-lo conseguido.