VIVER PELO CORAÇÃO

A consciência faz de nós, seres humanos, uma espécie animal diferente. A nossa capacidade de sentir emoções e depois escrever sobre elas, leva-nos a patamares que nenhuma outra espécie animal pode chegar. Segundo os critérios da medicina chinesa, essa capacidade é nos dada pelo elemento metal, ou seja, pela faculdade psíquica do órgão pulmão, que é responsável pela percepção de nós próprios e do outro. No entanto a percepção por si não chegava se não fosse dotada da capacidade de raciocínio fornecida pelo elemento terra, ou seja, pela faculdade mental dos órgãos baço e pâncreas. Formulado o pensamento, baseado na percepção individual da realidade, o ser humano cria uma resposta, usando para isso a faculdade mental do elemento madeira (fígado), a criatividade. Chega agora a altura de agir, e para isso os rins são chamados a intervir. O elemento água (rins) detêm a faculdade mental para a acção. Com isto, existem várias fases, uma roda viva de racionalizações e emoções agilizadas entre si por um único elemento, harmonizador e catalisador, o fogo, ou seja, o órgão coração. É este último que assume a responsabilidade de distribuir a vida emocional pelo corpo, nutrindo assim as estruturas do pensamento, permitindo as diversas interiorizações e exteriorizações individuais de cada pessoa. Um conjunto de acções e consequências, que experienciam a vida, em todas as suas vertentes. O coração, na visão oriental, é assim responsável por armazenar as memórias. "Saber de cor" - saber de coração - é uma expressão que todos nós conhecemos muito bem. 

Mas se por tudo isto o elemento fogo, o coração, permite armazenar a experiência, quando nós nos referimos a ele para ponderar e para decidir de forma acertada, estaremos nós apenas a apelar à sua experiência corporal, humana? A resposta é não! O coração na visão chinesa é muito mais do que a memória corporal, é a casa do espírito (Shen), é nele que habita o ser que nós somos, antes da forma humana. E esse ser, que tantas vezes buscamos fora de nós, tem o conhecimento e as memórias de todas as experiências e de todas as aprendizagens, até aqui vividas pelo Ser Humano, pela Humanidade. Há uma ligação directa entre o nosso coração (microcosmo) e o Coração da Vida (macrocosmo). Citando Rumi, ..."nós não somos um gota do oceano, nós somos o oceano todo numa gota."

Mas não só de memória vive este órgão. O coração é também a manifestação física, dualista do ser. Um ser energético, luminoso, perfeito mas incompleto, que tal como uma criança, tem o potencial máximo de se tornar naquilo que quiser, mas que ao mesmo tempo, têm ainda que crescer e experienciar. Este ser, omnipresente e omnisciente nesta manifestação física (corpo), é pureza e amor incondicional. É por isso que só amamos verdadeiramente se vier do coração, e um desgosto de amor, literalmente "parte-nos o coração", talvez não a peça física, mas sem dúvida a sua energia.

Na minha experiência, todas as doenças vêm do coração. A razão é muito simples, vivemos afastados do centro (peito), afastados daquilo que somos, à procura na rua de algo que temos em casa. Procuramos nos relacionamentos, procuramos nas roupas, procuramos nos carros, procuramos no trabalho, procuramos nas aparências, procuramos, procuramos, mas não entendemos que somos nós próprios o tesouro...que está dentro de nós, guardado no coração a felicidade e a realização plena, enquanto seres nesta experiência humana. Não entendemos que a felicidade e o amor não se dão, não se agarram, não se constroem, nem tão pouco se roubam, pois elas são manifestações de um coração e o coração é vida, não um nome mas um verbo...

Escolham viver, escolham ser vida, escolham ser amor incondicional até que o coração não aguente mais. Morrer por morrer, escolham morrer de amor!

Nuno Nunes in Love box de Ricardo Passos